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Tô nem aí, tô nem aí…

“Tô nem aí”, título da antiga composição da cantora Luka – parada de sucesso durante meses a fio e hit de verão no passado –, reflete o espírito cultural até e hoje. Dizia o refrão: “Tô nem aí, tô nem aí / Pode ficar com seu mundinho eu não tô nem aí / Tô nem aí, tô nem aí / Não vem falar dos seus problemas que eu não vou ouvir”.

A mensagem da música é que ninguém está preocupado com os outros, nem mesmo com a vida. “Já nem lembro seu nome, seu telefone eu fiz questão de apagar”, diz outro trecho. A sugestão é clara: você precisa se reinventar, virar a página e estar “noutra”.

O sociólogo Max Weber, muito lido e discutido nos meios acadêmicos, ensina que a religião pode se manifestar de dois modos – ascético e místico. No modo ascético, o fiel se vê como instrumento de Deus, adotando uma postura ativa na qual aprende a se dominar, controlar seus impulsos e quer controlar o mundo (ascese no mundo) para servir a Deus. É um comportamento que tende para a transcendência e personalização do divino, muitas vezes como repressor, segregador; é fruto de esforço; tem enfoque ético, exigindo dentro do mundo uma transformação dos fiéis em termos de conduta moral.

Como resultado, este tipo de religiosidade levada ao extremo pode desenvolver uma vida completamente desprovida da realidade, legalista, que prega um Deus com chicote na mão, pronto para castigar quem quer que seja que não interpretar e seguir sua linha rígida de conduta. Aqui não me refiro aos elevados e nobres ideais éticos divinos que temos na Bíblia, mas um Deus modelado e colocado numa “caixinha” interpretativa humana que, muitas vezes, pode ser fruto de personalidade disfuncional – um Deus apenas da justiça, sem amor. Uma santificação etiquetada com legalismo. Um tipo de religiosidade segregadora, marginalizadora contra quem não tem a mesma percepção do que é viver para Deus.

Já no modo místico, a busca é pelo desenvolvimento de uma postura contemplativa em que o fiel se vê como um receptáculo do divino. Aqui, o desenvolvimento é de uma ascese para fora do mundo, tendendo para a imanência e despersonalização do divino, constituindo experiência para os iniciados. Neste caso, a vida não tem qualquer abordagem ética – o que importa é a contemplação e a vida mística. Portanto, a religião mística não afeta a conduta da maioria dos fiéis no cotidiano. Temos aqui, inversamente ao modelo anterior de religiosidade, um Deus do amor, mas que não se preocupa necessariamente com a justiça com aquilo que é reto. Vejo que tem muita gente tão preocupada com a sua espiritualidade interior que se esquece dos compromissos éticos e sociais, de modo a nem se importar como anda sua conduta. Há crentes adulterando, flertando com a promiscuidade, com as drogas, e, como diz a música da Luka, não “tão nem aí”. Pouco se importam com a santidade, com as disciplinas espirituais, com a transformação do caráter. O que vale mesmo é a curtição mística para implementar a alma. O resto é meramente resto.

Olhando a análise destes dois tipos de religiosidade, creio que precisamos das duas abordagens em equilíbrio. É preciso buscar a santificação, mas também é preciso continuar a viver no mundo. É necessário aspirar à vida ética; mas também à contemplativa. Uma impulsionará a outra. Uma será resultado da outra. A vida não pode ser segmentada, precisa ser considerada de forma integral, não há como buscar a santidade, a piedade, a vida interior, sem haver a conexão com as escolhas éticas, os compromissos com os elevados valores bíblicos que compõe a própria vida humana como componentes presentes no Plano da Criação preparado por Deus e que foram desvirtuado quando da queda no Éden. Por isso que a salvação, o Plano da Redenção serve para nos levar de volta para o Plano da Criação. A salvação como meio e não como fim.

Por isso mesmo, não é possível encarnar Cristo em nossa vida, ser sal da terra e luz do mundo – como nos recomenda a Palavra –, somente com a contemplação ou exigências legalistas e sem a santidade ética. Uma coisa não choca com a outra. Você iria a uma consulta para emagrecimento com um médico endocrinologista que pesa 120 quilos? É a mesma coisa que cantar: “Tô nem aí com a vida, com a ética. O que importa mesmo é o que estou sentindo, o que meu coração “tá” falando”. Isso virou moda.

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