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NEM TUDO QUE DÁ CERTO é certo!

Quando pensamos no cotidiano em que temos o desafio de viver no mundo, logo nos vem à mente a vivência ética do dia-a-dia. Falando em ética, não há como deixar de falar em decisão. E temos de tomar decisões o tempo todo, mesmo quando dizemos que não tomamos uma decisão, estamos decidindo, pois, uma não-decisão é também uma decisão – a de não decidir. Sobra-nos a questão sobre o ponto de partida para as nossas decisões diárias. Uma delas tem sido o pragmatismo que considera uma decisão certa aquela que dá certo ou aquela que é útil.

Assim, é normal pensarmos que tudo que dá certo é bom, é certo ou correto. Nos dias de hoje, o sucesso é tido como paradigma de aprovação. Assim, se a sala de aula está cheia, é sinal de que o professor é competente. Se a empresa está lucrando, significa que seus produtos e serviços têm qualidade. Igreja lotada é sinônimo de ministério abençoado. Mas, será mesmo?

O problema é quando aplicamos esta mesma lógica para o campo da ética em nossas decisões diárias. O caso do famigerado mensalão e, mais recentemente, do petróleo na Lava-Jato, é típico. Para que projetos de leis ou interesses de grupos fossem aprovados em Brasília e empresas fossem beneficiadas com obras de elevado rendimento, descobriu-se que valores eram generosamente distribuídos a parlamentares para que votassem favoravelmente ou licitações fossem aprovadas beneficiando empresas que participavam dos esquemas. Então, para que tudo isso trouxesse vantagens a políticos e empresários, era preciso descobrir meios que garantissem a conquista desse alvo. Enquanto o esquema funcionou, tudo era “correto” e cada um recebia a sua parte. Mas alguém entrou em prejuízo – no caso do mensalão foi o ex-deputado Roberto Jefferson, no petróleo foram as prisões que provocaram as delações premiadas –, então houve a denúncia e o efeito dominó aconteceu. Estão caindo e sendo presas altas autoridades e seus assessores palacianos, empresários etc. A mesma lógica funcionou no caso do ex-presidente Collor, do ex-juiz “Lalau” e de tantos outros (daria um grande e extenso “etecétera”). Cabe a pergunta: será que as coisas, no Brasil, só vêm à tona quando alguém deixa de receber algo ou está em prejuízo (prisão-delação premiada)? Que resposta você daria a esta pergunta?

Parece-me que esta lógica “mensalista e petroleira” ainda reina solta não apenas na capital do País, mas em toda tessitura da vida ética nacional, pois não é apenas nas altas esferas do poder que é possível detectar isso, na nossa vidinha comum também é possível ver casos de gente pega com a mão na botija, são inúmeros.

Quem nunca ouviu falar do funcionário que apresenta notas fiscais mais altas do que as despesas que fez para reembolso? Nos restaurantes e nas corridas de táxi, sempre pede comprovantes com valores mais altos; afinal, “os tempos não estão fáceis e é preciso encontrar maneiras para sair do sufoco”! Assim a pessoa vai se dando bem, até o dia em que é descoberta e vai para o olho da rua com a ficha suja.

E o marido ou esposa que vive um caso extraconjugal, escondendo a situação da família durante anos a fio? Um belo dia, um telefonema indiscreto, um e-mail ou mensagem digital ou um bilhete perdido no paletó ou na bolsa, põem a farsa por água abaixo. Ou o casal de namorados que esconde dos pais que já têm vida sexual plenamente ativa até o dia que a menina aparece grávida?

E o que dizer do motorista que leva uma multa e, com a sua pontuação já beirando os 20 pontos, acaba colocando a infração em nome de outra pessoa que pode dar uma mãozinha e livrá-lo de sofrer num banco do departamento de trânsito para ser “reciclado”. Se dá certo, por que não pensar que isso é certo???

Todas são situações em que tudo parecia dar certo, apesar das flagrantes transgressões da ética, da lei e da retidão pelos envolvidos. Logo, nem tudo que dá certo, ou que funciona por um tempo, é correto. De onde você parte, quais os fundamentos que você utiliza para tomar as suas decisões cotidianas? A sua ética é orientada pela funcionalidade, utilidade ou por princípios que sinalizam se nossos atos estão certos ou não?

Esta abordagem ética é de cunho pragmático e utilitarista e só pode ser fruto de um caráter deformado que desconsidera que a verdade tem de ser compatível com a realidade e não com a conveniência ou adequação e com os resultados. É uma ética fundamentada em valores egoístas e que estimulam a “lei de Gérson” – a lei da vantagem pessoal. A ideia aqui é congelar a realidade dos fatos e fazer valer nosso interesse pessoal ou o os interesses de nosso grupo. Satisfeito isso, tudo volta ao normal como se nada tivesse acontecido, até que surja outra oportunidade.

Sem dúvida precisamos buscar resultados, mas resultados que são compatíveis com a justiça, com a verdade e retidão. Se almejamos um mundo melhor o desafio que nos resta é a busca por princípios permanentes e universais que fundamentem uma conduta reta, justa e irreprovável. E isso deve vir desde o berço e da vivência doméstica.

Necessitamos, portanto, escolher entre buscar o utilitarismo pragmático ou ter uma vida orientada por princípios éticos fundamentados na verdade, na honestidade, no respeito ao próximo, à natureza. Somente assim nossas atitudes e decisões serão essencialmente certas.

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