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Habilidades e virtudes, sem conflito

Há vários dilemas que podem incomodar pessoas de bem, pessoas íntegras e que estão engajadas na realização de algo sustentável e duradouro para suas vidas, suas carreiras e para a sociedade. Caso essa pessoa seja cristã, seja um discípulo de Cristo, é possível que seus dilemas sejam maiores em número, em quantidade.

A relação entre ser um cristão virtuoso ao mesmo tempo em que se torna um profissional com competências diversas pode levar pessoas a um dilema; mas não deveria. Tanto o mundo dos negócios quanto a cultura secular mais sofisticada, como a cultura digital, e determinados (eu não disse todos) aspectos da pós-modernidade, têm seduzido a muitos na Igreja. Isso é visto com facilidade em quase tudo o que a nova cultura igrejeira produz, desde (o bizarro) carnaval gospel até as tentativas de justificar tecnicamente o “enegrecimento” do interior dos locais de culto. As “desculpas” nunca são bíblicas, sempre técnicas, de dentro dos campos da psicologia e – o que é pior –, do marketing.

Aqui chegamos ao ponto principal desta primeira nota que escrevo para o portal: a relação entre o que é propriamente “nosso”, cristão (não disse sagrado), e o que é propriamente uma produção humana, de natureza humana para fins humanos (não disse profano).

Em outras palavras, no mercado das ideias e dos comportamentos não deve haver restrição àquilo que representa a alma de mais de 40 milhões de brasileiros, que é a fé evangélica (nem incluí católicos para não ofender sensibilidades). Não vivemos uma democracia em país laico? Então deve haver espaço para todos… nós.

Quando dizemos que somos discípulos de Jesus, as pessoas esperam ver algo diferente, não o que elas já fazem bem feito. Mas, ao contrário disso, querendo ser agradáveis, aceitos, bem vistos e queridos, temos dado a elas uma caricatura, uma fake image de uma fake persona que não cola. Fazer isso não tem a menor justificativa!

Peter Schutz, que foi CEO da Porsche, recomendava: “Contrate caráter e treine as habilidades”. Essa recomendação resume muito bem o que quero dizer, além de reforçar a ideia de que a sociedade mais ampla, e especialmente as empresas de ponta da nova geração, estão desesperadas por pessoas que sejam habilidosas no trato comercial, competentes como profissionais e diferentes como pessoas, isto é, virtuosas e mais humanas.

Acontece que quando falamos de virtudes, estamos falando de algo que a fé cristã deve entender muito bem, melhor do que o melhor MBA pode proporcionar aos melhores profissionais do mercado. As páginas do Novo Testamento há dois mil anos estampam breves, mas consistentes, listas de virtudes que o relacionamento pessoal com Jesus pode produzir em você, em mim e em quem quer que se aproxime dele. Um exemplo é Gálatas 5.22-23; outro exemplo é Efésios 4.25-32 e há outras listas.

Portanto, não entre em um dilema desnecessário que pode existir somente na sua imaginação, de que é preciso ajustar-se ao modelo cultural ou à “ética do mercado” para que consiga destacar-se. Não penso que precisamos nos tornar o “crentão a toda prova”, o “missionário enrustido” (a não ser em missões transculturais em países cujos regimes são de segregação e perseguição).

Seja você um cristão virtuoso e um profissional habilidoso. Peter Schutz estaria de olho no seu currículo.

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